terça-feira, 3 de julho de 2012

Missionários Combonianos completam 60 anos em terra brasileira. Só cabe gratidão!

Há exatos 60anos atrás os primeiros combonianos chegavam à pequena cidade de Balsas, sul do Maranhão. No dia 12 de junho de 1952, às vésperas da festa do padroeiro da cidade, Santo Antônio, os primeiros missionários, filhos de Daniel Comboni, eram recebidos com rojões, entre aclamações e gritos de alegria. Aquela chegada, naquele dia, representou uma feliz coincidência, como que a simbolizara consagração de uma aliança esponsal com aquela comunidade eclesial. E, posteriormente, com toda a igreja – povo do Brasil. Hoje, profundamente mergulhados na cultura do provisório, do descartável e do transitório, os combonianos insistem em confirmar sua fidelidade e sua disposição em amar, zelar, cuidar de tantos homens e mulheres que têm visto nesses missionários um instrumento da compaixão e do amor do Pai. Em que pesem as normais fragilidades pessoais e institucionais, essas ‘bodas de diamante’ significam para os combonianos uma renovada disposição a servir, como outrora, ‘os mais abandonados e esquecidos desse mundo’. Não cabem nesses momentos autoelogios e auto-exaltação e sim, autênticas manifestações de agradecimentos que brotam do mais profundo do coração de quantos têm servido como missionários nessa terra.

Agradecimentos a todos aqueles combonianos vivos e atuantes, e aos ‘ressuscitados’ no Pai, que com sacrifício, abnegação e espírito de adaptação souberam conviver, animar e colaborar com comunidades eclesiais, famílias e grupos humanos defendendo e promovendo a plenitude do direito e da vida.

Agradecimentos a tantos homens e mulheres dessa terra nordestina e brasileira que têm acolhido, cuidado, protegido e amado mais de 300 combonianos que aqui passaram ao longo desses 60 anos. Pessoas tão humanas que têm sido para esses missionários verdadeiros pais, irmãs e irmãs, de verdade. Sabendo compreender e relevar, - sem julgar ou condenar, - suas formas de ser que nem sempre eram condizentes com o jeito e a cultura local.
Agradecimentos a todas aquelas famílias que com verdadeiro espírito de desprendimento e solidariedade não somente têm apoiado as escolhas e opções dos combonianos, mas colocaram seus bens, seu tempo, e ofereceram suas orações para apoiar e sustentar uma missão que tem sido bem maior que os próprios ‘enviados’.

Agradecimentos, enfim, ao Deus da vida, pois se algo os combonianos têm semeado ao longo desses60 anos foi a seiva divina do Espírito que fez germinar, crescer e frutificar fraternidade, esperança renovada e vontade de transformar.
Conselho Provincial Brasil Nordeste

RECONCILIAÇÃO COM A CRIAÇÃO:A família comboniana e a missão socioambiental

Carta aberta à Família Comboniana
A promoção da Paz, Reconciliação e Justiça Social e Ambiental é uma dimensão essencial da Missão. Gradualmente, vamos tomando consciência da urgência particular da questão ecológica e da consequente necessidade de a incluir entre as nossas prioridades de acção apostólica .

A Terra, que recebemos como dom do Criador, Pai e Mãe da Humanidade, suscitou desde sempre o assombro reverencial e a admiração contemplativa do crente bíblico: “Senhor nosso Deus, como é grande o vosso Nome em toda a Terra!” (Salmo 8). Esta Terra que pisamos tornou-se duplamente sagrada quando a Palavra criadora veio habitar no seu seio (João 1,14). O Espírito das origens, de novo pairando sobre a Terra, mantém vivo nela o Sonho de Deus de “novos céus e nova Terra onde reinará a Justiça” (2 Pedro 3,12-13).
Em contraste com a extrema docilidade das criaturas, garantia da harmonia primordial (Baruc 3,32-35), hoje a Terra é ameaçada como nunca, objeto de ganância, manipulação e tirania, violentada e escravizada para servir interesses vis e mesquinhos. O grito dos pobres, que se levanta um pouco por todo o lado, é também o grito da Terra que reclama respeito e justiça.

Nós, missionários da Boa-Nova da Libertação (Lucas 4,14-21), levamos como primeiro dom a Paz: “A Paz esteja nesta casa!” (Lucas 10,5-6). Ora, a Paz não poderá reinar nesta “casa global” senão encontrar homens e mulheres que acolham as exigências da Justiça social e ambiental, garantia de fraternidade e equilíbrio ecológico. O desafio que a humanidade hoje enfrenta é enorme e de consequências incomensuráveis. Também da nossa resposta depende o triunfo da Vida sobre as forças obscuras da Morte.

Família Comboniana reunida no Rio
Nós, combonianos e combonianas vindos de três continentes, reunidos no Rio de Janeiro por ocasião da Conferência Rio+20 e da Cúpula dos Povos, que acompanhámos com interesse nos dias 20 a 25 de Junho de 2012, apesar do fracasso da conferência oficial, sentimos profundamente a presença de Deus na Criação inteira e nas lutas do povo em defesa da mesma.
Juntos refletimos e rezámos; escutámos e partilhámos a longa história que nos trouxe até aqui, passando pelos Fóruns Sociais Combonianos de Nairobi, de Belém e de Dakar, e pelas indicações dos nossos capítulos gerais, desde 1997 a 2009.

Deixámo-nos desafiar pelos grandes problemas socioambientais que se fazem sentir nas nossas províncias e nos nossos continentes. Não podemos responder a esses desafios e a esse cenário global de degradação sem pensar em mudanças no paradigma de civilização e sem mudar, com coragem e humildade, o nosso estilo de vida e a nossa própria organização.

Desafiados pelos grandes problemas socioambientais
Uma nova sensibilidade ambiental deve permear as nossas comunidades no que diz respeito aos seus modelos e hábitos de consumo, aos tipos de alimentação e à sua relação com os bens naturais.
A nossa educação popular e religiosa deve incluir na pastoral, liturgia e catequese o tema da reconciliação com a criação, procurando investir particularmente nos leigos.
Cabe a nós missionários resgatar e oferecer o alicerce bíblico, teológico e moral da preservação dos bens comuns e das várias formas de vida e a denúncia profética da mercantilização indiscriminada dos recursos do planeta e da própria Vida.

Necessidade de uma mudança estrutural
A estrutura comboniana precisa também de mudar, ao serviço de uma missão mais abrangente e eficaz. Por isso sentimos necessidade de:
- uma nova interação entre os secretariados gerais dos nossos Institutos, considerando a JPIC, para todos os efeitos, parte integrante do secretariado da evangelização;
- uma maior descentralização administrativa, a partir dos conselhos continentais como instrumento de assessoria dos secretariados e da direção geral;
- um maior envolvimento dos centros de reflexão teológica a nível continental, de modo a ajudarem a contextualizar e a aprofundar os nossos compromissos na promoção da Paz, Reconciliação, Justiça Ambiental e Social;
- uma consistente inclusão dos temas da promoção da Paz, Reconciliação e Justiça Social e Ambiental na formação de base e dos próprios formadores;
- uma maior interação a nível da Família Comboniana, nomeadamente na reflexão e preparação conjunta da nossa participação nos próximos Fórum Teológico e Fórum Social Mundial em março de 2013, em Tunes (Tunísia);
- uma manifesta disponibilidade das direções gerais dos nossos Institutos em apoiar o próximo Fórum Social Comboniano em março de 2013, na Tunísia.

Algumas propostas de animação
- Para que a promoção da Paz, Reconciliação, Justiça Social e Ambiental se afirme como dimensão essencial da missão comboniana, inspirando a nossa evangelização, a animação missionária, a formação de base e permanente e a economia, propomos uma campanha comum que nos oriente ao longo do próximo ano de 2013. Assim, o nosso próximo encontro em Tunes seria uma boa ocasião para o lançamento oficial dessa campanha.
- Os conflitos de terra e a grilagem (land grabbing) estão a agredir os territórios e os povos de forma violenta nas nossas circunscrições dos continentes africano e americano. Já recolhemos muitas informações e alguns documentos a respeito, contudo sentimos a necessidade de aprofundar ainda mais este tema, de estudá-lo de forma comparada entre as circunscrições combonianas e de organizar a advocacy dos combonianos/as atuantes na Europa e na América do Norte.
- Reforçamos também as iniciativas interprovinciais de pesquisa, denúncia e empoderamento das comunidades sobre o tema da mineração. Apoiamos a realização de encontros temáticos sobre este assunto entre as províncias e delegações mais afetadas por essa agressão.
- Recomendamos, enfim, atenção e estudo a respeito do grave problema da privatização da água e dos conflitos daí decorrentes, que afetam de modo global o mundo inteiro. Será um dos maiores desafios das próximas décadas, afetando diretamente a todos os povos, e em especial os mais pobres e os excluídos.

Com a certeza de que Comboni e a sua coragem profética nos confirmam nestes caminhos de promoção de Paz, Reconciliação e Justiça Social e Ambiental, queremos como Família Comboniana encontrar de novo as pessoas de fé e os movimentos sociais no Fórum Teológico e no Fórum Social Mundial de 2013.

Rio de Janeiro, 20-25 de Junho de 2012

Nome dos Participantes do FCIC e respetiva proveniência:
Ir. Antonio Soffientini (Brasil Nordeste – BNE)
P. Arturo Bonandi (Brasil Nordeste – BNE)
P. Claudio Bombieri (Brasil Nordeste – BNE)
P. Dario Bossi (Brasil Nordeste – BNE)
P. Domingos Sávio de Oliveira (Brasil Nordeste – BNE)
P. José Manuel Guerra Brites (Brasil Nordeste – BNE)
P. Juan Manuel Rodríguez Martín (Brasil Nordeste – BNE)
P. Justino Martínez Pérez (Brasil Nordeste – BNE)
P. Adriano Zerbini (Brasil do Sul - BS)
P. Alcides Costa (Brasil do Sul – BS)
P. Dunn Álvarez Henry Oswaldo (Brasil do Sul – BS)
P. Joaquín Manuel Sánchez Macías (Brasil do Sul – BS)
P. Martinho Lopes Moura (Brasil do Sul – BS)
P. Massimo Ramundo (Brasil do Sul – BS)
P. Robinson de Castro Cunha (Brasil do Sul – BS)
P. Jaime Roberto Dubón Chávez (Delegação da América Central – DCA)
P. Juan Armando Goicochea Calderón (Peru/Chile – PE)
P. John Michael Converset (Província Norte-americana –NAP)
P. José Manuel Baeza Gama (Província Norte-americana –NAP)
P. Daniele Moschetti (Sudão do Sul – SS)
P. Herivelto de Sousa Marques (Moçambique – MO)
P. Alessandro Zanotelli (Itália – I)
P. Arlindo Ferreira Pinto (Curia – Itália)
P. Fernando Zolli (Itália – I)
P. John Robert Anthony Clark (London Province – LP)
P. Josef Altenburger (Alemanha – DSP)
P. Robert Turyamureeba (Alemanha – DSP)
Irmã Olga Estela Sanchez (Brasil – SMC)
Irmã Loreta Dalla Stella (Brasil – SMC)
Irmã Caterina Ingelido (Brasil – SMC)
Sr. Danilo Chammas (Leigo do Brasil Nordeste – Justiça nos Trilhos)
Sr. Raffaello Zordan (Leigo da Itália – revista Nigrizia)

sábado, 28 de abril de 2012

CARTA ABERTA DOS MISSIONÁRIOS COMBONIANOS DO BRASIL NORDESTE EM FAVOR DO POVO AWÁ-GUAJÁ DO MARANHÃO

Os Missionários Combonianos do Brasil Nordeste, ao tomar conhecimento de mais uma campanha internacional em favor do povo indígena Awá-Guajá (Maranhão), encabeçada pela ONG inglesa Survival, vêm a público reafirmar seu apoio irrestrito a tudo o que vem salvaguardar a integridade física, cultural e territorial dessa nação indígena. Há exatos 20 anos foi publicada a portaria ministerial de demarcação (Nº 373/92), mas a lentidão dos procedimentos processuais, os inúmeros recursos e prazos legais interpostos e, principalmente, as pressões políticas e econômicas regionais permitiram que o território Awá fosse progressiva e dramaticamente invadido em níveis gigantescos. Em que pesem as sucessivas decisões da Justiça Federal que vêm reconhecendo sistematicamente a constitucionalidade do território ocupado pelo povo Awá (118.000 ha.), a situação atual é literalmente caótica.

Madeireiros da região de Buriticupu, Bom Jardim, São João do Caru, invadem e saqueiam à luz do dia. A Agropecuária Alto Turiaçu, que ocupa ilegalmente 85% do território Awá, associada a povoados e pequenos centros rurais que se instalaram após a portaria de demarcação, vem deixando um rasto de destruição e de ‘terra queimada’. Criminosa foi à época da publicação da portaria de demarcação a omissão do governo federal que não interveio tempestivamente permitindo que se consumasse a invasão do território Awá por numerosos não índios e que a situação assumisse as proporções incontroláveis de hoje. Estradas vicinais vêm sendo percorridas por veículos de passageiros e de cargas bem no coração da terra Awá sem nenhum tipo de fiscalização e/ou inibição oficial.

Denúncias não têm faltado, campanhas foram flagradas, reportagens e serviços jornalísticos têm sido publicados. O drama dos Awá não tem conhecido pausas e nem alívio. Tudo parece ter assumido uma configuração de impotência e de derrota. A recente sentença emitida unanimemente pela 6ª Turma do Tribunal Regional Federal em Brasília determinando que a UNIÃO e a FUNAI promovam o registro da área demarcada, e que no prazo de um ano removam as pessoas não-índias que se encontram no interior da terra demarcada, bem como que se proceda ao desfazimento das construções edificadas no perímetro da Portaria 373/92, nos dão um novo alento. Perguntamo-nos, no entanto, se o Governo Federal nessa atual conjuntura tem interesse e vontade em colocar como prioridade a situação dos Awá do Maranhão. Afinal, eles são uma das inúmeras vítimas da cobiça insana e incontrolável de ruralistas, madeireiros, e de seus tentáculos e aliados políticos que legislam em causa própria nesse País!

Hoje, na proximidade da festa do ‘Bom Pastor’, como missionários nessa terra tão duramente provada queremos alertar a sociedade em geral e aqueles que são chamados a administrar o País como o fez Jesus de Nazaré diante do poder avassalador do Império. Não obstante tantos mercenários que se aliam a lobos famintos e insaciáveis é preciso acolher o desafio de conhecer as angústias e os sonhos das ‘ovelhas’. E colocar a própria vida à disposição delas, a fim de que a sua própria vida seja garantida e protegida num redil/reino onde, longe de toda ameaça, vivam a unidade e a fraternidade. E àqueles pastores civis e religiosos que apascentam somente a si mesmos, que fogem, que não cuidam das ovelhas feridas e abatidas, deixando-as se dispersar, que venha o julgamento divino expressado pelo profeta Ezequiel: ‘Impedirei esses pastores de apascentarem o meu rebanho. Deste modo eles não tornarão a apascentar-se a si mesmos. Livrarei minhas ovelhas da sua boca e não continuarão a servir-lhes de presa (Ez. 34,10)
São Luis, 29 de abril, 2012 – Festa do Bom Pastor

segunda-feira, 9 de abril de 2012

SAÚDE E DOENÇA NO NOVO TESTAMENTO

0. Introdução: Jesus e os doentes

O anúncio da missão de Jesus na sinagoga de Nazaré inclui “a recuperação da vista aos cegos” (Lc 4,18). No entanto, em toda ação de Jesus, percebemos inúmeros gestos de quem está preo¬cupado em recuperar a saúde. Não apenas no aspecto biológico, mas promover o ser humano para ter uma vida digna, saudável e reintegrada à sociedade, porque a doença significava exclusão social e, às vezes, religiosa. Diz o Evangelho: “Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas sinagogas deles, anunciando a Boa Nova do Reino e curando toda espécie de doença e enfermidade do povo” (Mt 4,23).

As obras de Jesus manifestam, assim, sua origem divina e sua messianidade. É dessa forma que ele responde aos discípulos de João Batista: “Ide contar a João o que vistes e ouvistes: cegos recuperam a vista, paralíticos andam, leprosos são purificados e surdos ouvem, mortos ressuscitam e a pobres se anuncia a Boa Nova” (Lc 7,22).

Com sua ação evangelizadora, Jesus não apenas cura os doentes, mas resgata o ser humano para o meio da sociedade, dando-lhe dignidade e apresenta uma nova forma de relacionar-se com as pessoas necessitadas. Os Evangelhos são repletos de relatos de Jesus curando os doentes.
Jesus não tem só poder de curar, mas também de perdoar pecados: ele veio curar o homem inteiro; é o médico de que necessi¬tam os doentes. Sua compaixão para com todos aqueles que sofrem é tão grande que ele se identifica com eles: “estive doente e me visitaste” (Mt 25,36).

1. A cura do cego de nascença

O capítulo nono do Evangelho de São João relata o encontro de Jesus com um cego de nascença (Jo 9,1-41). A cegueira era comum no Oriente Médio. De acordo com o relato evangélico, são os discípulos que per¬cebem a presença do cego e propõem uma questão a Jesus. A dúvida dos discípulos, ao encontrarem o cego, é de ordem teológica. “Quem pecou para que ele nascesse cego?” (Jo 9,2) Seguindo a teologia tradicional, os discípulos propõem a Jesus uma pergunta pela causa da cegueira: teria o homem pecado ou teriam sido seus pais (Jo 9,2), pois havia a compreensão de que o pecado dos pais poderia prejudicar os descendentes, por várias gerações.
A resposta de Jesus aos discípulos é clara: “nem ele, nem seus pais pecaram, mas é uma ocasião para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo 9,3). Cristo interrompe a tradição de vincular doen¬ça e pecado e oferece aos discípulos, aos fariseus, aos judeus, aos familiares do cego e ao próprio cego uma catequese sobre sua missão. Jesus apresenta-se como ‘luz do mundo’ e luz que se manifesta pelas obras que realiza. Essa experiência permite que o próprio cego se transforme em discípulo.

Ao romper com a teologia corrente e afirmar que a doença não é fru¬to de pecado, nem castigo de Deus, Jesus acaba também com a lógica excludente de atribuir a culpa da enfermidade a Deus e por decorrên¬cia ao pecado, o que gerava e, ao mesmo tempo, legitimava a exclu¬são social e religiosa de quem se achasse doente. A narrativa do sinal é encerrada com a constatação: “o cego foi, lavou-se e voltou enxergando” (Jo 9,7).
A finalidade catequética do evangelista está em evidenciar a missão de Jesus como luz do mundo (Jo 8,12). Por isso joga muito com as palavras ‘ver’ e ‘crer’.

2. Bom samaritano: paradigma do cuidado.

A parábola do bom samaritano é entendida como paradigma do cuidado. No contexto da CF, o bom samaritano é uma figura emblemática para o cuidado que se espera da parte dos profissionais e servi¬dores da saúde. A parábola ajuda a pensar sobre a solidariedade.
A parábola do Bom Samaritano lembra a condição de fra¬gilidade humana, mas também indica que os seguidores de Je¬sus devem descobrir a importância do cuidado. O samaritano é aquele que em face da necessidade do outro a assimila e se deixa transformar por ela.
Essa atitude é revelada nos sete verbos e indica um modo de ser diante do outro, que pode iluminar o engaja¬mento da Igreja e dos cristãos no campo da saúde pública.

a. Ver. - a primeira atitude foi enxergar a realidade. Ele não ignorou a presença de alguém caído à margem da estrada. Esta atitude, porém, não é suficiente. O ‘sacerdote’ e o ‘levita’ que haviam passa¬do antes dele também ‘viram’, mas passaram adiante. “Bom samaritano é todo homem que se detém junto ao sofrimento de outro homem, seja qual for o sofrimento”.

b. Compadecer-se. - a percepção do caído condu¬ziu o Samaritano à atitude de compaixão. A compaixão diante da fragilidade do outro desencadeou as demais atitudes tomadas pelo samaritano. Bom samaritano é todo homem sensível ao sofrimento do outro, o homem que se ‘comove’ diante da desgraça do próximo. Se Cristo, conhece¬dor do íntimo do homem põe em realce esta comoção, quer dizer que ela é importante para todo o nosso modo de comportar-nos diante do sofrimento de outrem.

c. Aproximar-se. - ao contrário dos que o antecederam, o via¬jante estrangeiro aproximou-se do caído, foi ao seu encon¬tro, não passou adiante. No homem assaltado, ferido, ne¬cessitado de cuidado, reconheceu seu próximo, apesar das muitas diferenças entre ambos.

d. Curar. - a presença do outro exige cuidado. A aproximação, a compaixão não são simplesmente sentimentos benevolen¬tes, elas se tornam obra, se transformam em ação.

e. Colocar no próprio animal - este passo é significa¬tivo. Ele colocou a serviço do outro os próprios bens: primeiro seu meio de transporte, depois o que trazia para seu autocuidado, dinheiro.

f. Levar à hospedaria- O samaritano envol¬veu outras pessoas e estruturas para não deixar morrer aquele que fora assaltado. Nem sempre conseguimos responder a todas as demandas, mas podemos mobilizar outras forças para atender e cui¬dar de quem sofre. Trata-se de criar parcerias. A Igreja em sua missão profética, é cha-mada a anunciar o Reino aos doentes e a todos os que sofrem, cuidando para que seus direitos sejam reconhecidos e respeita¬dos, assim como a denunciar o pecado e suas raízes históricas, sociais, políticas e econômicas, que produzem males como doença e a morte.

g. Cuidar. Expressa o conjunto da intervenção do samaritano. Trata-se de um cuidado coleti¬vo, que envolveu personagens, recursos, estruturas... A razão é que agora ela incluiu outra pessoa, um compromisso que não estava planejado no início da viagem. Cuidar passa a ser uma missão. A figura do bom samaritano assume a condição de modelo para a ação evangelizadora da Igreja no campo da saúde e no cam¬po da defesa das políticas públicas.
O espírito do samaritano deve impulsionar o trabalho da igreja. Como mãe amorosa, ela deve aproximar-se dos doentes, dos fracos, dos feridos, de todos os que se encontram jogados no caminho a fim de acolhê-los, cuidar deles, infundir-lhes força e esperança. No restabelecimento da saú¬de física está em jogo mais que a vitória imediata sobre a enfermidade. Quando nos aproximamos dos enfermos, aproximamo-nos de todo ser hu¬mano de suas relações porque a enfermidade o afeta integralmente.


3. Saúde no Evangelho de Mateus
Queremos salientar o jeito como o Evangelho de Mateus fala da doença em relação a Jesus. Em Mt 4,23 temos um sumário significativo da atividade evangelizadora de Jesús: “Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando a Boa Notícia do Reino, e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo”.

Colocam-se as três atividades que realiza Jesús: ensina nas sinagogas, prega a Boa Notícia do Reino e cura todo tipo de doença e enfermidade do povo. O curar de Jesús forma parte do anúncio do Reino de Deus: se ele expulsa os demônios é também sinal de que o reino de Deus chegou.
É interessante sublinhar que esse versículo 23 faz inclusão com 9,35 onde se diz textualmente: “Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, pregando a Boa Notícia do Reino, e curando todo tipo de doença e enfermidade”. Este arco narrativo encerra o sermão do Monte e os capítulos 8-9 onde se narram dez milagres de curas.
Assim construída esta sequência podemos ver como tanto a mensagem como os gestos curativos de Jesus formam parte da missão fundamental do anúncio do Reino de Deus. Além disso, temos que acrescentar que 9,35-38 é um texto-dobradiça, quer dizer, fecha ou serve de conclusão para a primeira unidade (4,23-9,35) e ao mesmo tempo abre ou aponta para unidade seguinte onde se fala da missão dos discípulos (Capítulos 10,1-11,1). O que se diz de Jesús é dito também como missão da Igreja a ser realizado nos dias de hoje e sempre.

4. A participação humana nos sofrimentos de Cristo

O sofrimento redentor de Cristo leva o homem ao reencontro com seus próprios sofrimentos. Este processo foi vivido por são Paulo: “Com Cristo fui pregado na cruz. Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim. Minha vida atual na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,19-20). A cruz de Cristo ilumina a vida humana, especialmente o so¬frimento e a morte, porque o anúncio da cruz inclui a notícia da ressurreição, a qual confere uma iluminação nova ao sofrimento.
Bento XVI lembra que a Igreja como comunidade deve praticar o amor. No evangelista João, a mensagem de Cristo parece conter apenas um grande mandamento: “Eu vos dou um novo mandamen¬to: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós de¬veis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 34). É o amor, no Espírito, que constitui a comunidade eclesial e a impulsiona ao serviço, a acorrer aos sofridos e necessitados.

Justino Martínez Pérez

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Que a Saúde se Difunda Sobre a Terra

Fraternidade e Saúde Pública



A Campanha da Fraternidade “A fraterni¬dade e a Saúde Pública”, com o lema: Que a saúde se difunda sobre a terra (cf. Eclo 38,8) deseja sensibilizar a todos sobre a dura realidade de irmãos e irmãs que não têm acesso à assistência de Saú¬de Pública. É uma realidade que clama por ações transformadoras. A Igreja, à luz da Palavra de Deus, deseja ilumi¬nar a dura realidade da Saúde Pública e levar os discípulos-missioná¬rios a serem consolo na doença, na dor, no sofrimento e na morte e exigir que os pobres tenham um atendimento digno em relação à saúde.

Objetivo Geral: Refletir sobre a realidade da saúde no Brasil em vista de uma vida saudável, suscitando o espírito fraterno e comunitário das pes¬soas na atenção aos enfermos e mobilizar por melhoria no sistema público de saúde.

Saúde e Doença: dois lados da mesma realidade
A vida, a saúde e a doença são realidades profundas y as ciências não se encontram em condições de oferecer uma palavra definitiva. Assim, as enfermidades, o sofrimento e a morte apresentam-se como realidades duras de serem enfrentadas. Nas línguas antigas temos um termo para saúde e salvação. Na língua grega, soter é aquele que cura, e ao mesmo tempo é salvador. Entre os orientais, o ser humano era concebido de forma unitária, com suas distintas dimensões profundamente integradas.

Saúde e salvação para a Igreja
O ser humano é uma profunda unidade. Os temas da saúde e da doença exigem uma abor-dagem ampla. O Guia para a Pastoral da Saúde, elaborado pelo CELAM diz que “saú¬de é um processo harmonioso de bem-estar físico, psíquico, social e espiritual, e não apenas a ausência de doença, processo que capacita o ser humano a cumprir a missão que Deus lhe destinou, de acordo com a etapa e a condição de vida em que se encontre”.
Trata-se de uma concepção dinâmica e socioeconômica da saú¬de que, não o restringe a reflexão a causas físicas, mentais e espirituais, mas avança para as sociais. Os determinantes sociais de saúde são elementos relacionados à preservação ou à produção de saúde. Trata-se das condições mais gerais socioeconômicas, culturais e ambientais de uma so¬ciedade e têm relação com as condições de vida das pessoas, como: trabalho, habitação, saneamento básico, ambiente de tra¬balho, serviços de saúde e educação de qualidade, ligações das redes sociais e comunitárias.

Doença e saúde no Antigo Testamento
Os significados de saúde e de salvação são convergentes. Em geral, saúde e salvação significam plenitude, integridade física e espiritual, paz, prosperidade. As religiões sempre ofereceram respostas à busca de um sentido, particularmente em rela¬ção à dor, ao sofrimento, ao mal e à morte. A bíblia hebraica apresenta a origem do mal e do sofrimento, mas descartando qualquer possibilida¬de de participação divina. Assim, a preservação da saúde, mais do que a cura da doen¬ça, é obtida pela observância da lei de Deus. No livro do Deuteronômio (cf. Dt 28,1-14), a bênção prometida para quem observa a lei de Deus é uma situação de bem-estar, saúde e prosperidade. Porém, quem não a observa terá a maldição, a infelicidade, as doenças, a opressão (cf. Dt 28,15ss).
Entre os judeus piedosos o fato de recorrer aos médicos era visto como falta de fé no Deus vivo, pois a doença era compreendida como punição por parte de Deus.

Vários salmos são de doentes que suplicam a Deus a cura. Segundo Carlos Mesters, “cura e perdão dos pecados parecem duas faces de uma mesma moeda: ambos vêm de Deus mediante a prece. Porém, o Eclesiástico também propõe um novo modo de compreender a doença e, sobretudo, estimula um comportamento diferente na busca do res¬tabelecimento da saúde. Se antes, recorrer à medicina e a seus profis¬sionais era visto como falta de fé no Deus Altíssimo, o Eclesiástico con¬sidera os remédios, os médicos e a ciência como possibilidades de cura que vêm do próprio Deus e, consequentemente, devem ser buscados quando necessário”. Vejamos isto no Eclesiástico e no livro de Jó.

O Eclesiástico e a sabedoria popular em saúde
O livro do Eclesiástico resulta da coleta de um conjunto de ensinamentos que circulava no meio do povo. Muitas vezes, os ditos são dispostos de pequenas coletâneas, como no caso do verso que inspirou o lema da CF deste ano, “a saúde se difunde sobre a terra” (cf. Eclo 38,8). Este é o verso central de uma coleção de ditos sobre saúde e sobre o papel e a missão dos médicos e de outros profissionais que buscam preservá-la.
Essa unidade (Eclo 38,1-15) está emoldurada por duas cole¬ções relacionadas com o tema da saúde. O texto antecedente (Eclo 37,27-31) fala sobre a temperança, especialmente como modo de preservar a saúde. O texto posterior (Eclo 38,16-23) fala da morte, inevitável para homens e mulheres, mas que não deve ser causa de tristeza permanente para os que permanecem.

O texto subsequente (Eclo 38,16-23), de maneira realista, re¬corda que temos um destino comum: a morte. Ela faz parte da vida. Nenhum ser vivente dela escapa. Embora reconheça que é natural a dor da separação e da perda, o compilador resgata da sabedoria popular o conceito de ‘a vida continua’. Nestas oca¬siões, é tempo de manifestação da solidariedade fraterna que pode fazer brotar de novo a esperança.
Eis o tempo de recorrer ao serviço de saúde, ao ‘mé¬dico’, como cita o texto bíblico (v.5), sem hesitações, pois é um dom de Deus para a saúde. Também foi o Senhor quem deu ao homem “a ciência” (v. 6), por meio da qual o médico cura, elimi¬na a dor e o “farmacêutico prepara as fórmulas” (Eclo 38,7).
O autor sugere que há colaboração entre Deus e a humanidade, por isso não se deve renunciar, nem menosprezar as conquis¬tas alcançadas pela inteligência humana, pois elas são obra de Deus e meios pelos quais o criador continua sua ação no mun¬do.

O sofrimento do justo e seu significado
Talvez o livro mais significativo do Antigo Testamento, sobre o nosso tema, é o que narra a experi¬ência de Jó. Este escrito sapiencial enfrenta o pro¬blema do sofrimento, relacionando: doença – castigo – pecado – Deus. Cada doença ou sofrimento se explicava pela identificação de algum pecado cometido contra Deus que, por justiça, castiga o pecador impondo-lhe algum sofrimento.

A teologia do livro de Jó representa um avanço na for¬ma de se compreender o sofrimento, sua origem e valor. Não é, ainda, a palavra definitiva capaz de explicar o mal e o sofrimen¬to, sobretudo aquele mal de que padece o inocente. O livro de Jó é um debate teológico sobre o significado do sofrimen¬to. É conhecida a história deste homem que, repentinamente, viu sua vida mudar. De pai rico e feliz de muitos filhos e filhas, tornou-se um miserável cheio de feridas. Enquanto Jó toma consciência e se pergunta por que aconteceu tal mudança, apresentam-se em sua casa três amigos. Eles têm, inicialmente, profunda sensibilidade e por “uma semana” ficam calados (uma chave do livro) e sofrem solidariamente com Jó. Quando deci¬dem dialogar, os amigos procuram convencer Jó a reconhecer seu pecado, pois “para ter sido atingido por tão variados e tão terríveis sofrimentos, deve ter cometido alguma falta grave”. Jó, ciente de sua inocência, se nega a ligar doença com pecado e, sobretudo, ver a doença como castigo de Deus.

Para ele, o sofrimento deve ter outra explicação. Por isso, chama Deus para que lhe dê a resposta. Atreve-se a questionar o próprio Deus. Na conclusão “ o próprio Deus desaprova os amigos de Jó pelas suas acu¬sações e reconhece que Jó não é culpado. O seu sofrimento é de um inocente: deve ser aceito como um mistério, que o homem não está em condições de entender totalmente com a sua inteligência”.

O Beato Papa João Paulo II chama a atenção que, “para perceber a verdadeira resposta ao porquê do sofrimento, devemos voltar nossa atenção para a revelação do amor divino, fonte última do sentido de tudo aquilo que existe. O amor é também a fonte mais rica do sofrimento que, não obstante, permanece sempre um mistério; estamos conscientes da insuficiência e inadequação das nossas explica¬ções. Cristo introduz-nos no mistério e ajuda-nos a descobrir o porquê do sofrimento, na medida em que nós formos capazes de compreender a sublimidade do amor divino”.

Justino Martínez Pérez