quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Que a Saúde se Difunda Sobre a Terra

Fraternidade e Saúde Pública



A Campanha da Fraternidade “A fraterni¬dade e a Saúde Pública”, com o lema: Que a saúde se difunda sobre a terra (cf. Eclo 38,8) deseja sensibilizar a todos sobre a dura realidade de irmãos e irmãs que não têm acesso à assistência de Saú¬de Pública. É uma realidade que clama por ações transformadoras. A Igreja, à luz da Palavra de Deus, deseja ilumi¬nar a dura realidade da Saúde Pública e levar os discípulos-missioná¬rios a serem consolo na doença, na dor, no sofrimento e na morte e exigir que os pobres tenham um atendimento digno em relação à saúde.

Objetivo Geral: Refletir sobre a realidade da saúde no Brasil em vista de uma vida saudável, suscitando o espírito fraterno e comunitário das pes¬soas na atenção aos enfermos e mobilizar por melhoria no sistema público de saúde.

Saúde e Doença: dois lados da mesma realidade
A vida, a saúde e a doença são realidades profundas y as ciências não se encontram em condições de oferecer uma palavra definitiva. Assim, as enfermidades, o sofrimento e a morte apresentam-se como realidades duras de serem enfrentadas. Nas línguas antigas temos um termo para saúde e salvação. Na língua grega, soter é aquele que cura, e ao mesmo tempo é salvador. Entre os orientais, o ser humano era concebido de forma unitária, com suas distintas dimensões profundamente integradas.

Saúde e salvação para a Igreja
O ser humano é uma profunda unidade. Os temas da saúde e da doença exigem uma abor-dagem ampla. O Guia para a Pastoral da Saúde, elaborado pelo CELAM diz que “saú¬de é um processo harmonioso de bem-estar físico, psíquico, social e espiritual, e não apenas a ausência de doença, processo que capacita o ser humano a cumprir a missão que Deus lhe destinou, de acordo com a etapa e a condição de vida em que se encontre”.
Trata-se de uma concepção dinâmica e socioeconômica da saú¬de que, não o restringe a reflexão a causas físicas, mentais e espirituais, mas avança para as sociais. Os determinantes sociais de saúde são elementos relacionados à preservação ou à produção de saúde. Trata-se das condições mais gerais socioeconômicas, culturais e ambientais de uma so¬ciedade e têm relação com as condições de vida das pessoas, como: trabalho, habitação, saneamento básico, ambiente de tra¬balho, serviços de saúde e educação de qualidade, ligações das redes sociais e comunitárias.

Doença e saúde no Antigo Testamento
Os significados de saúde e de salvação são convergentes. Em geral, saúde e salvação significam plenitude, integridade física e espiritual, paz, prosperidade. As religiões sempre ofereceram respostas à busca de um sentido, particularmente em rela¬ção à dor, ao sofrimento, ao mal e à morte. A bíblia hebraica apresenta a origem do mal e do sofrimento, mas descartando qualquer possibilida¬de de participação divina. Assim, a preservação da saúde, mais do que a cura da doen¬ça, é obtida pela observância da lei de Deus. No livro do Deuteronômio (cf. Dt 28,1-14), a bênção prometida para quem observa a lei de Deus é uma situação de bem-estar, saúde e prosperidade. Porém, quem não a observa terá a maldição, a infelicidade, as doenças, a opressão (cf. Dt 28,15ss).
Entre os judeus piedosos o fato de recorrer aos médicos era visto como falta de fé no Deus vivo, pois a doença era compreendida como punição por parte de Deus.

Vários salmos são de doentes que suplicam a Deus a cura. Segundo Carlos Mesters, “cura e perdão dos pecados parecem duas faces de uma mesma moeda: ambos vêm de Deus mediante a prece. Porém, o Eclesiástico também propõe um novo modo de compreender a doença e, sobretudo, estimula um comportamento diferente na busca do res¬tabelecimento da saúde. Se antes, recorrer à medicina e a seus profis¬sionais era visto como falta de fé no Deus Altíssimo, o Eclesiástico con¬sidera os remédios, os médicos e a ciência como possibilidades de cura que vêm do próprio Deus e, consequentemente, devem ser buscados quando necessário”. Vejamos isto no Eclesiástico e no livro de Jó.

O Eclesiástico e a sabedoria popular em saúde
O livro do Eclesiástico resulta da coleta de um conjunto de ensinamentos que circulava no meio do povo. Muitas vezes, os ditos são dispostos de pequenas coletâneas, como no caso do verso que inspirou o lema da CF deste ano, “a saúde se difunde sobre a terra” (cf. Eclo 38,8). Este é o verso central de uma coleção de ditos sobre saúde e sobre o papel e a missão dos médicos e de outros profissionais que buscam preservá-la.
Essa unidade (Eclo 38,1-15) está emoldurada por duas cole¬ções relacionadas com o tema da saúde. O texto antecedente (Eclo 37,27-31) fala sobre a temperança, especialmente como modo de preservar a saúde. O texto posterior (Eclo 38,16-23) fala da morte, inevitável para homens e mulheres, mas que não deve ser causa de tristeza permanente para os que permanecem.

O texto subsequente (Eclo 38,16-23), de maneira realista, re¬corda que temos um destino comum: a morte. Ela faz parte da vida. Nenhum ser vivente dela escapa. Embora reconheça que é natural a dor da separação e da perda, o compilador resgata da sabedoria popular o conceito de ‘a vida continua’. Nestas oca¬siões, é tempo de manifestação da solidariedade fraterna que pode fazer brotar de novo a esperança.
Eis o tempo de recorrer ao serviço de saúde, ao ‘mé¬dico’, como cita o texto bíblico (v.5), sem hesitações, pois é um dom de Deus para a saúde. Também foi o Senhor quem deu ao homem “a ciência” (v. 6), por meio da qual o médico cura, elimi¬na a dor e o “farmacêutico prepara as fórmulas” (Eclo 38,7).
O autor sugere que há colaboração entre Deus e a humanidade, por isso não se deve renunciar, nem menosprezar as conquis¬tas alcançadas pela inteligência humana, pois elas são obra de Deus e meios pelos quais o criador continua sua ação no mun¬do.

O sofrimento do justo e seu significado
Talvez o livro mais significativo do Antigo Testamento, sobre o nosso tema, é o que narra a experi¬ência de Jó. Este escrito sapiencial enfrenta o pro¬blema do sofrimento, relacionando: doença – castigo – pecado – Deus. Cada doença ou sofrimento se explicava pela identificação de algum pecado cometido contra Deus que, por justiça, castiga o pecador impondo-lhe algum sofrimento.

A teologia do livro de Jó representa um avanço na for¬ma de se compreender o sofrimento, sua origem e valor. Não é, ainda, a palavra definitiva capaz de explicar o mal e o sofrimen¬to, sobretudo aquele mal de que padece o inocente. O livro de Jó é um debate teológico sobre o significado do sofrimen¬to. É conhecida a história deste homem que, repentinamente, viu sua vida mudar. De pai rico e feliz de muitos filhos e filhas, tornou-se um miserável cheio de feridas. Enquanto Jó toma consciência e se pergunta por que aconteceu tal mudança, apresentam-se em sua casa três amigos. Eles têm, inicialmente, profunda sensibilidade e por “uma semana” ficam calados (uma chave do livro) e sofrem solidariamente com Jó. Quando deci¬dem dialogar, os amigos procuram convencer Jó a reconhecer seu pecado, pois “para ter sido atingido por tão variados e tão terríveis sofrimentos, deve ter cometido alguma falta grave”. Jó, ciente de sua inocência, se nega a ligar doença com pecado e, sobretudo, ver a doença como castigo de Deus.

Para ele, o sofrimento deve ter outra explicação. Por isso, chama Deus para que lhe dê a resposta. Atreve-se a questionar o próprio Deus. Na conclusão “ o próprio Deus desaprova os amigos de Jó pelas suas acu¬sações e reconhece que Jó não é culpado. O seu sofrimento é de um inocente: deve ser aceito como um mistério, que o homem não está em condições de entender totalmente com a sua inteligência”.

O Beato Papa João Paulo II chama a atenção que, “para perceber a verdadeira resposta ao porquê do sofrimento, devemos voltar nossa atenção para a revelação do amor divino, fonte última do sentido de tudo aquilo que existe. O amor é também a fonte mais rica do sofrimento que, não obstante, permanece sempre um mistério; estamos conscientes da insuficiência e inadequação das nossas explica¬ções. Cristo introduz-nos no mistério e ajuda-nos a descobrir o porquê do sofrimento, na medida em que nós formos capazes de compreender a sublimidade do amor divino”.

Justino Martínez Pérez

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